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Suicídio: “Enfermagem tem papel fundamental no atendimento de urgência”

Integração do enfermeiro com usuário/família favorece uma assistência mais adequada

01.09.2020

Entre janeiro e junho de 2020, o Serviço Móvel de Urgência (SAMU) atendeu a 25 suicídios e 245 tentativas de suicídio em Cuiabá e na Baixada Cuiabana. Os números são superiores aos observados no mesmo período do ano passado, quando ocorreram 16 mortes e 181 tentativas.

Já a quantidade de emergências psiquiátricas foi de 668 no primeiro semestre do ano passado. No mesmo período de 2020, foram 651 ocorrências. Ao longo do ano de 2019, foram registradas 36 mortes e 378 tentativas de suicídio na região metropolitana de Cuiabá. As emergências psiquiátricas, em geral relacionadas aos suicídios, representaram 76% dos 1.668 atendimentos realizados pelo SAMU durante todo o ano passado.

Segundo o coordenador geral do SAMU em Cuiabá, enfermeiro Weldo Ferreira dos Santos, com base no último trimestre, que fechou em agosto e cujos dados estão sendo compilados, a tendência é de redução de aproximadamente 10% nas ocorrências.

A enfermagem compõe a maioria na equipe do SAMU (dos 254 profissionais, 62 são enfermeiros e 79 são técnicos de enfermagem, além de 49 médicos e 64 condutores) e estão entre os primeiros a terem contato com vítimas e familiares.

Entre estes profissionais está a conselheira do Coren-MT, Lígia Arfeli. A abordagem, marcada pela vivência de situações de estresse e pânico, demanda controle emocional e empatia.

“Este tipo de atendimento requer um acolhimento maior, mais escuta, compreensão do contexto familiar etc., e o enfermeiro tem esse papel fundamental de dialogar, ter esta sensibilidade”, disse Santos. “Os profissionais de enfermagem muitas vezes lida com seus próprios fantasmas desencadeadores de estresse, depressão e pânico no dia-dia familiar ao receber um paciente com distúrbio mental”.

Confira abaixo a entrevista completa:

1 – Como foram impactados os números de suicídio com a pandemia de Covid – 19?

R: O impacto no número de atendimentos psiquiátricos e tentativas ou suicídios consumados foi relativamente importante. Em comparação com 2019, tivemos, até junho, 849 atendimentos sendo 668 psiquiátricos, 181 tentativas de suicídios e 16 suicídios consumados.

Já em 2020, tivemos 896 atendimentos, sendo 651 psiquiátricos, 245 tentativas de suicídios e 25 suicídios consumados.

Segundo estudos a taxa de suicídios no mundo apresenta uma diminuição, mas, no Brasil, os números mostram uma tendência de alta. Isso pode ter ocorrido por diversos fatores, dentre eles a pandemia, que impactou diretamente na vida das pessoas socioeconomicamente e com fatores mentais. Mas digo isso no campo das hipóteses, precisa ser estudado.

2 – Existe um perfil de paciente suicida?

Não existe um perfil que possa nos dar segurança de 100%, já que ele pode estar relacionado a distúrbio psiquiátrico ou patologia que altere o sistema nervoso central.

O que nos leva antecipar um quadro que possa culminar com o suicídio ou tentativa deste é um conjunto de fatores que devem ser observados e diagnosticados pelo profissional enfermeiro, entre eles o uso de drogas licitas e ilícitas, as mudanças de comportamentos das crianças e jovens, histórico e tendências a transtornos mentais ou de comportamentos suicidas no passado e sintomas como o isolamento social e familiar, o pessimismo e o ganho ou perda de peso exagerado, entre outros.

Um dos fatores relevante é a depressão, uma das causas predominantes. O suicídio não tem tratamento, mas as causas sim. Por isso, é importante que o profissional enfermeiro esteja atento a estes sinais.

3 – Qual a relevância da enfermagem para prevenção ao suicídio?

R: No processo de suicídio temos variáveis de fatores genéticas, socioculturais, psicodinâmicas, transtornos mentais etc.. A observação do comportamento emocional e as atitudes do paciente por parte do enfermeiro é um dos fatores predominantes na terapêutica da pessoa em conduta suicida.

Mas vale ressaltar que essa ação que deve ir além do paciente, sendo necessário um acolhimento das emoções, intervir e atuar na diminuição de fatores ou cenários que causem ou aumentem o estresse e a ansiedade.

4 – Quais os desafios para o acolhimento deste tipo de paciente?

R: Quando foi feita a reformulação das políticas de saúde mental, o tratamento destes pacientes foi estendido a toda a rede de saúde primária, secundária e terciária. Como enfermeiro e tendo atuado no atendimento psiquiátrico como profissional da saúde antes da reforma, avalio que houve avanços e retrocessos.

O maior prejuízo foi no acolhimento, uma vez que nem todo profissional de enfermagem hoje está preparado para receber esse paciente seja por falta de experiência mesmo.

Além disso, os profissionais de enfermagem muitas vezes lidam com seus próprios fantasmas desencadeadores de estresse, depressão e pânico no dia-a-dia familiar ao receber um paciente com distúrbio mental.

5- O que faz a diferença nesta abordagem?

O enfermeiro tem a possibilidade de identificar precocemente pessoas com diversos distribuídos mentais, familiares e sociais que possivelmente já atentaram contra a própria vida.

Porém, muitas vezes, a falta de conhecimento específico dificulta essa intervenção profilática para prevenir situações de suicídio.

Ao lidar diariamente com a família e com o paciente o acolhimento e a humanização fazem grande diferença, auxiliando as pessoas em sofrimento psíquico a retornarem ao sentido da vida.

A integração do enfermeiro com usuário/família favorece uma assistência mais adequada ao paciente, no âmbito familiar cabe ao enfermeiro ser sensível e humanizado saber escutar, ser voluntário, ajudar, estabelecer um elo de confiança, quebrar a barreira do medo e do preconceito, reconhecer o comportamento desencadeador e intervir para reduzi-lo.

 

 

 

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