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Pandemia mostrou precarização da saúde no Brasil, aponta ONG

Entre as medidas sugeridas estavam inclusão de álcool em gel, cloro e sabão entre os equipamentos de proteção individual

21.08.2020

Mais do que os números, chama a atenção o teor das mensagens recebidas pelos gestores, que de um dia para outro tiveram de para uma verdadeira guerra sem proteção ou equipamentos adequados.

Em uma das mensagens, a funcionária de um hospital público do Rio conta que vários profissionais foram contratados em fevereiro e março sem que tivessem recebido o vale-transporte. “Estão tirando dinheiro do próprio bolso para poderem trabalhar. Tem técnico de enfermagem que não recebeu salários de março nem de abril”.

Muitos não conseguiam falar com o RH do departamento. Na sede, eram orientados a enviar e-mails. Que nunca eram respondidos.

Uma funcionária da portaria de outra unidade de saúde carioca também relatou situação de estresse na linha de frente. “Estamos sofrendo um absurdo. Trabalhando no meio da pandemia com dois meses de salários atrasados.”

Houve queixas de dificuldades para recarregar vale-transporte e alimentação. Recém-contratado, um funcionário da portaria morreu após ser infectado pela covid-19. Trabalhou quase três meses e não recebeu salário algum. “Estamos trabalhando sem uniforme, sem EPIs. É uma verdadeira calamidade. Somos os primeiros a chegar e os últimos a sair das unidades de saúde e pedimos respeito.”

O sistema registrou ainda denúncias de falta de equipamentos, como respiradores, e de condições inadequadas de alojamentos dos hospitais de campanha, com espaços abafados e sem ventilação.

A maioria das reclamações é registrada no Rio, onde fica a sede do movimento. Mas, segundo o farmacêutico sanitarista Leandro Farias, fundador do Movimento Chega de Descaso e idealizador da plataforma Radar da Saúde, a ONG tem atendimento demandas do país inteiro, com orientação jurídica gratuita, de forma virtual, além de contato com advogados e defensoria pública.

Em Fortaleza, por exemplo, uma enfermeira pediu providências em relação a máscaras de proteção. A eles foi disponibilizada apenas um equipamento a cada 20 dias — caso fosse avariada, o profissional deveria trabalhar sem proteção até chegar uma nova máscara no mês seguinte.

Diante da demanda, o Movimento Chega de Descaso encaminhou 12 propostas à presidente da Comissão da Saúde da Assembleia Legislativa do Rio, deputada Martha Rocha (PDT).

Entre as medidas sugeridas estavam inclusão de álcool em gel, cloro e sabão entre os equipamentos de proteção individual, aplicação de adicional de insalubridade para profissionais de saúde, disponibilização de alojamentos, auxílio-funeral, isenção de impostos estaduais (ICMS) sobre a produção de materiais e na tarifa de energia elétrica, proibição da cobrança de juros e multa em caso de atraso no pagamento das contas de energia elétrica, água e esgotos e distribuição de gás durante a pandemia, possibilidade de uso da rede privada em caso de falta de leitos nos hospitais públicos, criação de uma central de atendimento e instalação de um comitê auditor a fim de investigar a gestão dos recursos públicos destinados ao combate da covid-19.

“Nem todas as sugestões foram aprovadas, mas a disponibilização de alojamentos para profissionais da saúde que residam com pessoas do grupo de risco foi sancionada com a nossa ajuda”, conta Farias.

Segundo ele, os números mostram como os profissionais da saúde foram vitimados durante a pandemia.

“Essa ferramenta dá voz às demandas da sociedade e, com elas, abrimos uma grande discussão para formular políticas públicas visando a melhoria do atendimento. O caráter não é só de denúncia, mas de propostas”, diz o ativista, que em 2015 criou o movimento após uma fatalidade em sua vida pessoal.

Fonte: Yahoo Notícias

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